Duas aves diferentes foram chamadas de Sturnella militaris? 

 

Sim.


Emberiza militaris Linnaeus, 1758, passou a chamar-se Leistes militaris (assim tratada em Meyer de Schauensee 1966 e 1970). Englobava a subespécie Leistes m. superciliaris que depois separou-se como Leistes superciliaris (Assim tratada em Meyer de Schauensee 1970). Em 1968, Short propôs a reunião de todas as “polícias-inglesas” no gênero Sturnella, portanto esta espécie passou a chamar-se Sturnella militaris (
Linnaeus, 1758). Ao mesmo tempo, Short sugeriu a separação da subespécie extra-amazônica como uma espécie à parte que passou a ser chamada de Sturnella superciliaris. Em 1987, Rensen & Parker propuseram o retorno destas duas para o gênero Leistes, passando a se chamarem Leistes militaris (Linnaeus, 1758) e Leistes superciliaris.

Sturnus militaris
Linnaeus 1771, foi descrita com base em um "estorninho" do Estreito de Magalhães. Esta mesma espécie foi descrita independentemente por Bonaparte, 1850, como Pezites defilippi (assim tratada em Meyer de Schauensee 1966). Quando Short (1968) colocou todas as “polícias-inglesas” no gênero Sturnella, esta espécie meridional não pode mais chamar-se Sturnella militaris, pois já havia a Sturnella militaris (Linnaeus, 1758), que por ter sido descrito antes (Lei da prioridade) manteve este nome, ocupando-o (não pode haver duas espécies com nomes idênticos num mesmo gênero). Portanto, a espécie meridional adotou o nome de Bonaparte, passando a chamar-se de Sturnella defilippi (assim tratada em Meyer de Schauensee 1970). Em 1987, quando as espécies do norte voltaram para o gênero Leistes, a presente espécie ficou desimpedida para voltar a ser chamada Sturnella militaris. Por isso e com este nome ela constou no Livro Vermelho (Collar et al. 1992) e no Ornitologia Brasileira (Sick 1997).

 

Portanto, duas espécies diferentes tiveram o nome de Sturnela militaris em diferentes momentos. A confusão deve ser desfeita verificando o ano da descrição. Sturnella militaris (Linnaeus, 1758). Assim chamada entre 1968 a 1987. Depois chamada Leistes militaris e hoje, novamente, Sturnella militaris. Sturnella militaris (Linnaeus, 1771). Assim chamada após 1987.  Corresponde à atual Sturnella defilippi.

 

Leistes superciliaris antes de 1968 era chamada de Leistes militaris (na verdade L. m. superciliaris). De 1968 a 1987 foi chamada de Sturnella superciliaris e após 1987 voltou a chamar-se Leistes superciliaris e hoje novamente Sturnella superciliaris.

Situação atual:


Sturnella militaris (Linnaeus, 1758) [Emberiza militaris, Leistes militaris]: só na Amazônia. Encontro vermelho, sem marcas na cabeça.


Sturnella defilippii (Bonaparte, 1850) [Sturnus militaris, Pezipes defilippi, Sturnella defilippi, Sturnella militaris]: Só no Sul, RS, SC e PR. Coberteiras inferiores da asa vermelhas, portanto em vôo, vê-se marcas vermelhas na asa, porém o vermelho não é visto quando a ave está pousada. Supercílio inicialmente vermelho (entre o bico e os olhos) continuando branco.


Sturnella superciliaris (Bonaparte, 1850) [Sturnella militaris (superciliaris), Leistes superciliaris]: Quase todo o Brasil extra-amazônico. Supercílio todo branco. Encontro vermelho. A fêmea é indistinguível no campo da fêmea de Sturnella militaris, da qual difere principalmente pelo bico mais curto e grosso.

José Fernando Pacheco